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Publicado em 16 de agosto de 2022
Época Negócios

Trabalho híbrido ou remoto, pandemia, diversidade, ESG, saúde mental, velocidade das tecnologias, incerteza no cenário econômico, cinco gerações trabalhando juntas, mudanças climáticas, transformação digital. As lideranças de hoje se deparam com todas essas variáveis — não à toa, muitos líderes se queixam de burnout ou dizem estar perdidos diante de tantas demandas. Adaptar-se aos novos tempos requer uma revisão dos próprios comportamentos, afirma a autora e palestrante Tonia Casarin. 

"A liderança exponencial é uma liderança que tem consciência do impacto das suas ações em três escalas: no eu, no nós e no mundo. Além de observar a si mesma, não é alheia ao contexto", diz Tonia, que é mestre em Liderança pela Universidade de Columbia (NY). Como palestrante, já se apresentou no TEDx, no SXSW e no Singularity Summit Brazil. Conectada ao ecossistema de inovação — hoje Tonia mora no Vale do Silício —, trabalha com consultoria e desenvolvimento de lideranças. 

O termo "liderança exponencial" faz referência a outra expressão, "organização exponencial", cunhada pelo autor Ismail Salim em 2014". Refere-se às empresas com crescimento acelerado em um curto espaço de tempo, baseado em inovação e escalabilidade. Ismail é também fundador da Singularity University, uma das instituições de educação executiva mais respeitadas do Vale do Silício. 

Tonia, que estudou na Singularity, observa que a mudança para uma liderança exponencial não vem sem desafios. Para ela, está em curso um movimento de revisão entre os líderes, que passam a avaliar seus comportamentos, muitas vezes alinhados a um modelo de gestão antigo. A liderança do futuro pede uma gestão humanizada, afirma a especialista. 

"Em pesquisas, fica provado que uma das maiores causas de pedidos de demissão por parte dos colaboradores é uma cultura tóxica dentro da organização. Isso pode vir de uma liderança que não funciona mais, aquela liderança vertical, controladora, que não confia nem escuta os funcionários", explica Tonia, que fará a palestra de abertura do curso "DNA da Inovação", uma parceria entre Época NEGÓCIOS e a escola de inovação CESAR School (@cesarschool). As inscrições serão abertas em breve e a lista de espera já está disponível para os interessados.

Não há fórmula pronta para que um líder se torne uma liderança exponencial, mas Tonia acredita que algumas características ajudam a traçar esse caminho. Confira:

1. Crie um ambiente de segurança psicológica 

A Grande Renúncia [termo criado em 2019 por Anthony Klotz, da Texas A&M, para prever demissões voluntárias em massa] foi um dos principais sinais de que o modelo de trabalho dentro das organizações não contemplava mais todas as demandas dos funcionários. "A princípio, analistas acharam que era algo diretamente relacionado à pandemia, mas mesmo depois do período pandêmico mais crítico esse movimento de êxodo da força de trabalho continuou", observa Tonia.

Para ela, o líder exponencial precisa aprender a criar um ambiente de segurança psicológica entre seus colaboradores. Trata-se de oferecer um ambiente de trabalho onde os funcionários se sentem confortáveis para falar abertamente sobre ideias relevantes, questões e preocupações, por exemplo. "As pessoas estão em busca de transparência e confiança. As empresas que criam ambientes onde as pessoas se sintam valorizadas e capacitadas para fazer suas próprias escolhas têm uma grande chance de manter os funcionários", afirma. 

2. Fomente a diversidade como premissa da inovação

O líder do futuro tem como premissa a curiosidade, não apenas para se manter atento às transformações, mas porque ele precisa desse atributo para criar um ambiente mais diverso. "Se o líder sai em busca do que é diferente, se ele quer ter perto de si pessoas que trazem outros pontos de vista, ele contribui para a diversidade da empresa, e nós sabemos que isso leva a mais inovação", afirma Tonia.

Tonia lembra que o Vale do Silício é frequentemente citado como "a capital mundial da tecnologia", um lugar que é símbolo do futuro e da inovação. Mas isso tem um motivo. "A inovação vem das pessoas, da colaboração entre elas, do compartilhamento de ideias, de suas perspectivas diversas, das perguntas desafiadoras que fazem, do poder de inspiração de cada um. Por isso, o futuro do trabalho é plural." 

A especialista lembra, porém, que a objetivo da diversidade vai muito além de entregar resultados melhores. "As empresas possuem o poder de reunir os imperativos econômicos e sociais para impulsionar mudanças significativas dentro de uma organização e de uma sociedade". 

3. Não ignore seu impacto como líder

A consciência do impacto no entorno não pode ser desprezada pela liderança que quer se tornar exponencial. "O líder do futuro sabe transformar o 'outro' em 'nós'. É assim que ele motiva os times", analisa a consultora.

Diretamente ligada à consciência está o cuidado. "Uma reclamação entre os colaboradores é a falta de atenção com os times durante a pandemia. Eu coloco isso na camada do cuidado, porque exige que o líder cuide de si mesmo e, por extensão, cuide da sua equipe", afirma. 

Além disso, os clientes estão cada vez mais atentos ao consumo com causa, isto é, aquele que não ignora o impacto social da produção de determinado produto ou serviço. Por isso, é importante que o líder traga essa causa para dentro da organização. Isso  ajuda na retenção de talentos, pois os profissionais querem se dedicar a companhias com as quais compartilham valores.

"Vemos as empresas também se colocando como agentes de transformação. Nos Estados Unidos, por exemplo, houve essa questão do aborto, e muitas lideranças se posicionaram de forma a garantir os direitos de colaboradoras. Essa é uma visão nova", analisa Tonia.

4. Aposte na "transformação humana"

"Nas empresas, em processos de transformação digital, é muito comum o foco ser nas tecnologias, sem se levar em conta a transformação humana. Não existe uma sem a outra", afirma Tonia. "Apesar de a tecnologia ser a ferramenta, as pessoas são exponenciais. Elas são os motores da inovação e transformação nas empresas", acrescenta.

Um movimento comum entre as organizações é criar departamentos de inovação. Isso, embora possa funcionar durante algum tempo, desloca os processos de inovação apenas para uma parte da companhia, quando na realidade o processo de inovar deveria ser integrado à cultura interna, aplicado em todas as áreas. "Costumo dizer que quanto mais a tecnologia se desenvolve, mais humanos precisamos ser", afirma. 

5. Transforme seu mindset para aceitar o erro honesto

"O Vale do Silício tem em seu DNA o mantra “erre rápido, erre freqüentemente”. No entanto, o erro ainda carrega um estigma paralisante para muitas pessoas nas organizações. Se você é um líder que valoriza a inovação, é hora de se livrar desses sentimentos em relação ao erro", afirma Tonia.

Ela observa que muitas empresas brasileiras ainda mantém um paradigma datado, de que a liderança não pode errar. Isso trava processos de inovação — fundamentais para toda companhia que quer alcançar o lugar de organização exponencial. 

Por fim, liderar requer coragem, afirma a especialista. Num cenário com tantas variáveis, observa, é impossível que a liderança não se sinta perdida. "Coragem requer aprender a lidar com o erro. Claro que estou falando do erro honesto, mas é preciso alargar essa tolerância ao risco", diz.

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